Pesquisa brasileira sobre educação sexual ganha continuidade no Reino Unido
Estudo analisa práticas participativas adotadas em escolas britânicas para ampliar o debate e fortalecer políticas educacionais no Brasil

A educação sexual nas escolas permanece como um dos temas mais controversos do debate educacional no Brasil, em grande parte em função de leituras equivocadas sobre suas finalidades. No Congresso Nacional, especialmente entre determinados parlamentares, é frequente o discurso que associa essa área do conhecimento a um suposto estímulo precoce à sexualidade de crianças e adolescentes; contudo, as evidências apontam para uma direção oposta. A educação sexual não se restringe à prática sexual, mas envolve aspectos como cuidado com o corpo, prevenção de violências, respeito às diferenças, consentimento, saúde e garantia de direitos.
É a partir dessa demanda que se desenvolve a pesquisa de mestrado do psicólogo Davi Augusto Soares, egresso da Universidade Tiradentes (Unit), que atualmente realiza estágio de pesquisa na Newcastle University, no Reino Unido, uma das instituições universitárias mais antigas e reconhecidas do país. O estudo é conduzido sob a supervisão da professora Deborah Ralls, pesquisadora responsável pelo desenvolvimento de metodologias participativas voltadas ao trabalho com jovens em ambientes escolares.
“Já é possível identificar diferenças significativas entre o debate sobre educação sexual no Brasil e no Reino Unido. Aqui, existem programas governamentais estruturados, com currículos bem definidos e uma discussão constante tanto no campo político quanto na sociedade. No Brasil, por outro lado, não há um programa nacional implementado de forma sistemática. A abordagem acaba sendo mais limitada, geralmente centrada em aspectos biológicos, enquanto no Reino Unido a educação sexual é tratada de maneira mais abrangente, considerando dimensões históricas, culturais e psicossociais da sexualidade”, relata.
Pesquisa construída a partir da escuta
O percurso do estudo evidencia um movimento ainda pouco consolidado no país: pensar políticas e práticas educacionais a partir da escuta ativa dos sujeitos envolvidos, em diálogo com experiências internacionais onde o tema já possui maior institucionalização. “Como a proposta é construir coletivamente uma educação sexual junto aos jovens, estou estudando, de forma prática, metodologias participativas e democráticas. Uma delas é o chamado Relational Toolkit. A ideia é retornar ao Brasil com um entendimento aprofundado dessa metodologia para adaptá-la e aplicá-la na pesquisa, respeitando o contexto brasileiro”, explica.
O trabalho é desenvolvido em uma escola pública de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mesmo durante o período de estágio no exterior, a pesquisa segue em andamento no Brasil, com reuniões virtuais semanais que asseguram a continuidade do diálogo com jovens e educadores.
Os desafios dessa experiência internacional começaram muito antes do deslocamento. “Esse é um projeto que venho construindo desde 2023. Entre planejamento, elaboração da proposta, contato com a professora no exterior e organização da documentação, foi um processo extenso. A primeira submissão, inclusive, não foi aprovada, o que exigiu revisão e uma nova aplicação. O aceite definitivo chegou apenas em outubro de 2025, e tive cerca de dez dias para organizar tudo. Apesar das dificuldades, contei com apoio fundamental do meu orientador de mestrado, da professora internacional, da minha mentora de carreira internacional, além de amigos e familiares. Ter essa rede de apoio foi decisivo”, relembra.
Impactos para além da pesquisa
A experiência no Reino Unido tem gerado impactos tanto no âmbito pessoal quanto profissional. No plano individual, Davi destaca o processo de adaptação e o desenvolvimento da autonomia em um contexto sem uma rede de apoio previamente estabelecida. No campo profissional, o estágio amplia o contato com pesquisadores de referência, debates contemporâneos e oportunidades de cooperação internacional.
A internacionalização da pesquisa também fortalece seu potencial de contribuição para o contexto brasileiro. “Desde 2022, desenvolvo um projeto de educação sexual em escolas públicas, que cresce a cada ano. No entanto, quando pensamos em alcance mais amplo, é fundamental dialogar com as políticas públicas. A vivência internacional me permite compreender o que funciona e o que não funciona em outros países, aprimorar metodologias e fortalecer o embasamento do meu trabalho, oferecendo mais consistência para influenciar práticas e políticas no Brasil”, afirma.
Além das exigências acadêmicas do mestrado, há planos para publicação dos resultados e para a consolidação de parcerias com instituições britânicas e europeias. Para Davi, a experiência pode servir de inspiração para outros pesquisadores brasileiros interessados em ampliar horizontes e fortalecer a produção científica nacional por meio do intercâmbio internacional. “É uma vivência transformadora, que impacta diretamente a forma como pesquisamos e compreendemos o mundo”, conclui.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
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